CONVITE
Já que falamos também dos mitos…
O percurso para o qual o convidamos pode ser equiparado, como metáfora, a uma busca heróica. Temos lido e ouvido falar da jornada do herói, seja por Campbell, seja por Jung e outros, como tendo seu início com a aceitação de um desafio que geralmente diz respeito a dizer sim a nós mesmos. Necessita, antes de qualquer coisa, de um consentimento interno: isto é para mim…, sou eu…
A jornada de um herói tem como objetivo algo como: encontrar algum tesouro, entregar algum objeto valioso, salvar alguma donzela em perigo, sendo que o herói necessita enfrentar e atravessar desafios para vencer, voltar ao reino e instaurar novamente a harmonia, o bem e a paz (através da consciência e não da alienação).
A caminhada heróica sempre visa o bem, e tem a ver com um dom que no início muitas vezes é ignorado, encoberto que está por outras idéias acerca de si mesmo, muitas vezes assimilada de outros sem muitos filtros (Artur - Sir Artur).
Ocorre que essa jornada demanda e promove um processo de profundas reflexões e transformações internas, sem o que, o herói não é capaz de vencer seus obstáculos, simbolicamente representados por matar dragões (Ulisses), responder corretamente a esfinge (Édipo), destruir o anel (Frodo), conscientizar-se da Matrix (Neo) e outros..
Assim, ser herói na contemporaneidade significa aceitar o desafio de uma jornada para encontrar mais da sua própria verdade e depois ter a coragem de agir de acordo com a visão transformada.
Entendo que o momento que vivemos sob a face do planeta Terra exige que cada um de nós empreenda sua jornada heróica em direção a um mundo melhor. Uma pequena parcela disso, mas de forte impacto, pode ser encontrada pela reflexão mais profunda sobre o feminino e seu princípio, tão recalcado nas sociedades atuais. Que primeiro nos conscientizemos desse princípio em nós mesmos e também nos outros, com seus limites e potencialidades e depois nos disponhamos a aprender mais, para que no final da jornada possamos voltar para nossos “reinos”, para apoiar a transformação de outros, na direção de um mundo mais sensível, intuitivo, como complemento indispensável ao já existente masculino, racional e sensorial. Assim, será mais natural, justo, harmônico e sustentável.
É como se fossemos cada um de nós (femininos e masculinos), uma peça de um gigantesco mosaico, que precisa ao se montar, deixar que cada um encontre seu “melhor lugar” em um design repleto de outras peças e em constante movimento. O mosaico ficará perfeito se cada qual conseguir vencer suas limitações individuais e, com a colaboração dos outros, assentar sua peça no melhor lugar para que o resultado final (que individualmente não podemos ver) fique belo e promova um efeito benéfico para todos.
Sabemos que o modelo mítico da jornada pessoal é válido, mas lembremos que na vida real é sempre cíclico. O final feliz de uma jornada tem curta duração, pois imediatamente quando vencemos uma, somos conclamados a iniciar uma nova, como uma espiral, em níveis mais elevados.
Assim é, seja qual for o nível de desenvolvimento pessoal, social, cultural, intelectual, espiritual em que cada um está, pouco importa, este é somente um dos estágios e podemos percorrê-lo juntos.
Sinta-se convidado.
Cleila Elvira Lyra
